Um incidente recente em uma praia no Lago de Garda ilustra a crescente interseção entre os hábitos de consumo digital e o assédio no mundo real. Duas mulheres encontraram três homens nus que pareciam fazer parte de um local de cruising queer, sentindo-se inicialmente seguras no que perceberam como um santuário da atenção masculina heterossexual. No entanto, a atmosfera mudou quando um homem exibiu agressivamente suas partes privadas enquanto outros usavam smartphones com pequenas lentes pretas apontadas diretamente para as mulheres. Pesquisas subsequentes nas avaliações do Google Maps revelaram que o local também era frequentado por homens heterossexuais que filmavam e assediavam mulheres secretamente, confirmando que o olhar agressivo sentido tinha uma natureza distintamente digital.

Esse comportamento reflete uma tendência mais ampla em que o olhar desenfreado formado ao longo de décadas em plataformas de redes sociais e pornografia está sendo transferido para a vida analógica. Smartphones e óculos de sol simples tornaram-se potenciais ameaças porque raramente é claro se um indivíduo está sendo filmado ou fotografado. Atrás das telas e dos óculos inteligentes, os indivíduos podem observar e consumir outros sem justificar seu próprio olhar, efetivamente reivindicando a propriedade de seu ambiente. Essa dinâmica é reforçada pelos algoritmos de recomendação em plataformas como o Instagram, que continuam a servir conteúdo sexualizado mesmo após os usuários indicarem desinteresse.

A tecnologia facilita a reprodução de formatos populares de pornografia, como "Public Agent" ou "Czech Streets", onde homens abordam mulheres na rua, muitas vezes oferecendo dinheiro por sexo, e as filmam sem seu conhecimento. Esses encontros roteirizados são projetados para parecer espontâneos através de uma perspectiva em Point of View (POV). Um relatório recente no jornal alemão taz detalhou como uma jovem foi abordada por um pick-up artist e filmada sem ser notada; o vídeo foi posteriormente carregado online para gerar cliques. Pesquisadores da Universidade de Sydney analisaram 350 vídeos do Instagram desse tipo dos últimos três anos, descobrindo que aproximadamente 60% envolviam comportamento classificado como assédio potencial, enquanto em 43% dos casos, as mulheres foram subsequentemente menosprezadas ou identificadas nos comentários.

A possibilidade de ser secretamente filmado a qualquer momento altera o comportamento, particularmente para mulheres e aqueles que não se conformam às normas visuais. Atividades como pegar o metrô, relaxar em uma sauna ou correr podem tornar-se fontes de ansiedade devido à ameaça da vigilância privada. As leis existentes frequentemente falham em abordar esse problema de forma eficaz porque as vítimas podem não saber que estão sendo gravadas, tornando a aplicação difícil. Embora o Instagram tenha anunciado planos em julho para excluir tal conteúdo, jornalistas do 404 Media encontraram dezenas desses vídeos apenas um mês depois.

A situação não mostra sinais de melhoria, pois empresas como a Meta promovem uma nova estética de vigilância com orçamentos significativos e endossos de celebridades, enquadrando a gravação permanente das redondezas como progressista e estilosa. Com os óculos inteligentes tornando a filmagem secreta mais fácil do que nunca, o ato cotidiano de ver está sendo industrializado. Mulheres em espaços públicos, já sujeitas a observação constante, estão efetivamente realizando trabalho não remunerado de "olhar" para as plataformas e para os homens atrás das câmeras. À medida que a tecnologia evolui, permanece incerto se um homem em uma praia está jogando um jogo ou secretamente gravando, deixando o futuro da privacidade nos espaços públicos ambíguo.

Fontes: netzpolitik.org.