A colisão de dois comboios em Urda, Toledo, voltou a suscitar questões sobre como os acidentes ferroviários são investigados e como tragédias futuras podem ser evitadas. A questão central, argumenta o artigo, não é apenas saber se um controlador ou sistema informático cometeu um erro, mas por que razão as salvaguardas disponíveis não impediram que essas falhas levassem a uma colisão.

As explicações iniciais do antigo ministro dos Transportes, Óscar Puente, apontaram para um erro de um controlador ferroviário, precedido por uma falha informática. No entanto, estudos de segurança, incluindo o modelo do “queijo suíço” do psicólogo James Reason, mostram por que um único erro humano raramente é uma explicação suficiente. Os sistemas dependem de várias camadas de proteção, cada uma com vulnerabilidades; um acidente pode ocorrer quando essas fragilidades se alinham e uma ameaça atravessa todas as barreiras.

Se a sequência descrita por Puente for confirmada, os investigadores terão de apurar como as medidas de segurança existentes permitiram que falhas técnicas resultassem num acidente. O erro de um trabalhador pode fazer parte da explicação, mas não deve encerrar automaticamente a investigação. Concentrar-se apenas num indivíduo identificável pode desviar a atenção de questões mais amplas, como a conceção dos procedimentos, as cargas de trabalho e o financiamento da rede ferroviária.

O artigo também alerta que o contexto político, incluindo a campanha eleitoral que antecede 29 de novembro, pode incentivar a procura de culpados em detrimento de uma investigação rigorosa. Acrescenta que a demissão de Puente não deve marcar o fim dos esforços para apurar o que aconteceu.

As infraestruturas críticas precisam de salvaguardas que limitem as consequências dos erros humanos, inclusive quando os sistemas técnicos estão degradados. A investigação deve considerar se o pessoal, os equipamentos e os procedimentos acompanharam a entrada de novos operadores e o consequente aumento do número de comboios na rede.

O artigo apela a uma investigação rigorosa e totalmente independente, com financiamento e tempo adequados. As suas conclusões devem conduzir a medidas corretivas que tratem o erro humano como uma possível consequência de fragilidades sistémicas, e não como a causa final da tragédia.

Fontes: elDiario.es.