Seis organizações da indústria da carne processaram a empresa de alimentos de origem vegetal Heura por causa da sua publicidade, das publicações nas redes sociais e dos rótulos dos produtos. Numa entrevista, Gemma Gaya, uma das advogadas que representa a Heura, disse que o processo pretendia restringir as comunicações públicas da empresa, mas acabou por produzir o efeito oposto: um tribunal reconheceu que as empresas podem participar no debate público quando as suas afirmações têm fundamento.
A disputa começou em 2020, quando as organizações pediram uma providência cautelar contra um cartaz da Heura em Madrid com a mensagem: «Um hambúrguer de carne polui mais do que o seu carro». No processo principal, iniciado em 2022 nos tribunais de Barcelona, contestaram as publicações da empresa nas redes sociais e os nomes dos produtos, alegando que as suas comunicações eram enganosas ou depreciativas e violavam as regras sobre concorrência desleal e publicidade.
As organizações — Provacuno, Avianza, Intercun, Interovic, Interporc e Asici — representam a maior parte da indústria da carne espanhola, cujo volume de negócios conjunto, segundo o artigo, ultrapassa os 25 mil milhões de euros. A Heura, fundada em 2017 e fabricante de produtos totalmente de origem vegetal, registou um volume de negócios de cerca de 17,7 milhões de euros.
Gaya disse que a ação contestava milhares de mensagens, incluindo publicações que afirmavam que a Heura gostava de carne, mas não das suas consequências. A defesa argumentou que as organizações não tinham explicado por que motivo cada comunicação era enganosa, tornando impossível responder a uma contestação tão abrangente. Sustentou também que muitas das afirmações da Heura citavam fontes científicas, enquanto outras expressavam opiniões.
Uma decisão de primeira instância deu, em grande parte, razão às organizações da indústria da carne, ordenando à Heura que retirasse o conteúdo contestado das redes sociais, publicasse a decisão em vários meios de comunicação e se abstivesse de comunicações semelhantes. A Heura recorreu e, em maio de 2026, o tribunal de recursos de Barcelona alterou substancialmente o desfecho. Segundo Gaya, o tribunal concluiu que não havia nada de enganoso ou depreciativo nas comunicações da Heura nas redes sociais, observando que a ação tinha atacado o estilo geral de comunicação da empresa sem apresentar fundamentos específicos para cada mensagem. O tribunal decidiu também que afirmações apoiadas por fontes científicas reconhecidas não podiam ser classificadas como enganosas.
O tribunal de recursos também confirmou que a Heura podia usar termos como «hambúrguer», «chouriço» e «salsicha» para produtos de origem vegetal. Gaya disse que essas designações não estão legalmente reservadas para produtos à base de carne, ao contrário de termos como «leite» ou «manteiga», e que as embalagens da Heura identificam claramente os seus alimentos como 100% de origem vegetal.
A ordem que se mantém limita-se ao slogan do cartaz que compara a poluição causada por um hambúrguer de carne com a de um carro. A Heura tem de deixar de usar essa mensagem específica e publicar a decisão, o que já fez. As organizações da indústria da carne aceitaram a decisão sobre os nomes dos produtos, mas recorreram da decisão relativa às comunicações nas redes sociais para o Supremo Tribunal de Espanha, pelo que essa parte do processo continua por resolver.
Fontes: elDiario.es.